A primeira vez que comi uma focaccia em Gênova foi num mercado coberto às sete da manhã, num sábado de chuva fina. Era mole por dentro, crocante embaixo, encharcada de azeite por cima com flor de sal e alecrim fresco. Voltei três vezes ao mesmo bancão naquela manhã. Quando cheguei em casa e tentei reproduzir, fiz tudo errado — ficou uma pizza grossa e sem graça. Levei meses para entender onde estava errando.
A focaccia genovese autêntica usa hidratação de 80–85% em relação à farinha, azeite extra-virgem na massa, na assadeira e por cima, fermentação de 24 horas na geladeira e forno a 230–250 °C por 20–25 minutos. Os dimples são feitos com os dedos untados momentos antes de assar — não antes da segunda fermentação. Cada um desses detalhes tem função técnica e ignorar qualquer um compromete o resultado final.
O que faz a focaccia genovese diferente de todas as outras
A origem histórica em Gênova e o papel do azeite
A focaccia al formaggio é de Recco. A pizza bianca é de Roma. A schiacciata é toscana. A focaccia genovese — a “focaccia clássica” que todo mundo imagina ao ouvir a palavra — é da Ligúria, especificamente de Gênova, onde é conhecida como fugassa em dialeto local.
O que distingue a versão genovese de qualquer imitação é a relação íntima com o azeite ligure, suave e frutado, e a hidratação generosa que cria uma estrutura alveolar grande e irregular por dentro, com casca crocante embaixo. Não é pizza. Não é pão de forma. É uma categoria própria de pão de padaria, consumida em Gênova na hora do café da manhã mergulhada em leite — hábito que choca cozinheiros franceses e fascina todos os outros.
Focaccia genovese vs. focaccia di Recco vs. pizza bianca — as diferenças reais
- Focaccia genovese: massa com levedura, hidratação alta, assada em assadeira com azeite abundante. Espessa, mole por dentro, crocante por baixo.
- Focaccia di Recco: sem levedura, massa finíssima recheada com queijo fresco (stracchino). Totalmente diferente em textura e técnica.
- Pizza bianca romana: massa mais seca, mais fina, assada em forno de lastro. Crocante uniforme, sem o miolo alveolado da genovese.
Os ingredientes e o baker’s math da focaccia genovese

Farinha, hidratação e por que 80% muda tudo
| Ingrediente | % da Farinha | Para 500g de farinha |
|---|---|---|
| Farinha de trigo | 100% | 500g |
| Água | 80% | 400ml |
| Azeite (na massa) | 5% | 25ml |
| Sal fino | 2% | 10g |
| Fermento seco instantâneo | 0,7% | 3,5g (≈1 colher de chá) |
A hidratação de 80% é onde tudo começa. Com 60–65% de hidratação (como a maioria das receitas de pão caseiro), a massa fica firme e fácil de trabalhar, mas o resultado é denso e seco. Com 80%, a massa é pegajosa e desconfortável para iniciantes — mas é exatamente essa umidade que cria a estrutura de bolhas grandes que caracteriza a genovese. Na mesma linha do pão de fermentação natural, alta hidratação significa mais trabalho manual mas resultado incomparável.
O azeite: na massa, na assadeira e por cima — cada um tem função diferente
- Na massa — suaviza o glúten, contribui para a textura mole do miolo e prolonga a validade
- Na assadeira — cria a cama de fritura que resulta na casca crocante e dourada por baixo
- Por cima antes de assar — combinado com a salmoura (água + sal + azeite), penetra nos dimples e cria a crosta superior brilhante
Receita passo a passo: focaccia genovese autêntica
Autólise e mistura da massa

Comece com autólise de 20–30 minutos: misture apenas farinha e água (sem sal, sem fermento, sem azeite) até incorporar. Cubra e deixe descansar. Esse descanso desenvolve glúten naturalmente, sem sovar, e é o que permite trabalhar com hidratação alta sem arrancar o cabelo.
Depois da autólise, adicione o fermento, o sal e o azeite. Misture com as mãos ou espátula até incorporar. A massa vai parecer uma bagunça pegajosa — é normal. O segredo está nas dobras.
Dobras de tensão e fermentação de 24 horas (cold retard)

Durante a primeira fermentação de 3–4 horas à temperatura ambiente, faça 4 séries de dobras com intervalo de 30 minutos. Cada série: com a mão molhada, estique um lado da massa e dobre sobre si mesma. Gire 90° e repita por quatro lados.
Cubra e leve à geladeira por 12–24 horas. Assim como quando mantemos um levain ativo em retardo de frio, o cold retard aqui desenvolve sabor e estrutura que a fermentação rápida nunca alcança.
Shaping na assadeira, dimples e a segunda fermentação
Despeje abundante azeite (3–4 colheres de sopa) na assadeira cobrindo todo o fundo. Transfira a massa delicadamente — sem desgasar — e com as mãos untadas, estique gentilmente até preencher a assadeira. Se resistir, espere 10 minutos e tente de novo.
Segunda fermentação: 2–3 horas à temperatura ambiente até dobrar de altura. Os dimples só vêm agora, minutos antes de assar. Com os dedos bem untados de azeite, pressione firmemente até o fundo da assadeira. Derrame a salmoura (2 colheres de sopa de azeite + 1 de água + 1 colher de chá de flor de sal) sobre toda a superfície.
Hora de assar: forno, temperatura e como saber que está pronta

Forno pré-aquecido a 230–250 °C, pedra de pizza ou assadeira grossa pré-aquecida. Asse por 20–25 minutos até a parte de baixo estar dourada e crocante. Retire imediatamente da assadeira para uma grade. Espere 10 minutos antes de cortar.
Os dimples: quando fazer, como fazer, por que importam

Dimples no momento errado destroem o trabalho de 24 horas. Se feitos antes da segunda fermentação, os buracos fecham enquanto a massa cresce. O timing correto é 5–10 minutos antes de entrar no forno.
Os dimples têm função estrutural: criam vales que retêm a salmoura de azeite e sal, que durante o forno vira uma espécie de cozimento em gordura localizada — por isso a casca ao redor dos dimples é mais crocante e saborosa. A pressão deve ir até o fundo da assadeira. Dimple tímido não é dimple, é covinha.
Erros que resultam em focaccia dura, sem bolhas ou sem casca

Hidratação baixa demais
Se usar 65% de hidratação, vai conseguir um resultado mais próximo de pão de forma do que de focaccia. A hidratação alta é inegociável para a estrutura alveolar.
Forno frio
Forno a 180–200 °C não tem temperatura para criar a casca crocante. Assim como o Crème Brûlée depende do calor certo, a focaccia precisa de 230 °C mínimo.
Azeite de má qualidade ou insuficiente
A casca por baixo só é crocante se o azeite na assadeira for abundante. Ao inclinar a assadeira, o azeite deve escorrer. Economizar aqui é o maior erro de quem faz pela primeira vez.
Variações e cobertura: do alecrim ao rosmarino com flor de sal
- Cebola roxa + azeitona preta — combinação mediterrânea tradicional
- Cherry tomatoes + manjericão — versão de verão
- Alecrim + limão siciliano + pimenta-do-reino — versão cítrica moderna
- Gorgonzola + pera + nozes — para aperitivo
- Pura, sem cobertura — para mergulhar em ricota fresca no estilo genovês
Como guardar, congelar e reaquecer a focaccia

Na temperatura ambiente, enrolada em papel de cera: 2 dias. Geladeira não funciona — resseca.
Para congelar: asse completamente, deixe esfriar, corte em porções e congele em saco hermético por até 3 meses. Para reaquecer: forno a 200 °C por 8–10 minutos direto do freezer, na grade.
FAQ — Perguntas Frequentes
Posso usar farinha comum em vez de tipo 00?
Sim. A farinha comum brasileira (11–12% de proteína) funciona bem. A tipo 00 italiana resulta em glúten mais extensível, ideal para a textura da genovese. Use a mesma quantidade.
Posso usar fermento biológico fresco?
Sim. Substitua 3,5g de fermento seco por 10–11g de fresco. Dissolva o fresco na água antes de incorporar.
Quanto tempo dura a focaccia?
Máximo 2 dias à temperatura ambiente. Para a melhor experiência, consuma no dia ou congele porções logo após esfriar.
Posso fazer sem geladeira?
Pode — reduza o fermento para 1,5g e faça 5–6 horas de fermentação à temperatura ambiente. O sabor será menos desenvolvido, mas o resultado ainda é bom.
Qual o tamanho ideal da assadeira?
Para 500g de farinha: assadeira de 30×40 cm para focaccia com 2–2,5 cm de altura. O aço carbono ou ferro fundido cria casca mais crocante que o alumínio fino.
Conclusão
A focaccia genovese é tecnicamente simples — poucos ingredientes, sem equipamento especial — mas exige respeito pelos parâmetros. Hidratação certa, azeite sem economia, forno quente, dimples no momento correto. Quando esses quatro elementos se alinham, o resultado é um dos pães mais satisfatórios que existem.
A primeira vez que acertei, comi metade diretamente na assadeira, em pé, sem prato. O restante foi servido com ricota temperada e azeite. Bon appétit!
Sobre o Autor
Rafael Monteiro — Chef e fundador do Pyriade
Formado no Le Cordon Bleu, apaixonado por técnicas gastronômicas e pela culinária brasileira. O Pyriade nasceu para levar o rigor da alta gastronomia para a cozinha de casa — sem complicar o que não precisa ser complicado.
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