Sole Meunière: Receita Clássica Francesa Passo a Passo

Por Rafael Monteiro | Pyriade | Fevereiro 2026


Sole meunière foi o prato que Julia Child comeu no seu primeiro jantar em Paris, em novembro de 1948, no restaurante La Couronne em Rouen. Ela escreveu sobre aquela refeição com uma intensidade que poucas pessoas reservam para descrever comida.

Entendo completamente.

Em fevereiro de 2013, minha primeira semana no Le Cordon Bleu, o chef instrutor Michel Bras Júnior colocou um linguado inteiro na bancada e disse apenas: “Ce plat n’a pas le droit d’être raté.” Esse prato não tem o direito de ser mal feito.

Passei a manhã seguinte entendendo por quê. A sole meunière é tecnicamente simples — farinha, manteiga, limão, salsinha. Por outro lado, é o tipo de prato que expõe completamente o nível técnico de quem cozinha. Não tem molho complexo para esconder erro, não tem guarnição elaborada para desviar a atenção. Há apenas o peixe e a manteiga.

Por isso, quando você acerta, é extraordinário. Quando você erra, não tem onde se esconder.


O Que Você Vai Encontrar Neste Guia

  • A história e a lógica por trás da sole meunière
  • Ingredientes: o que cada um faz pelo prato
  • A manteiga noisette: o elemento central da receita
  • Técnica passo a passo com os pontos críticos
  • Sole meunière: os erros que destroem o resultado
  • Harmonização e o que servir junto

1. Sole Meunière: O Que é e Por Que é Difícil

A Lógica do Prato

Sole meunière significa literalmente “linguado à maneira da moleira” — meunière vem de meunier, moleiro, referência à camada fina de farinha que envolve o peixe antes de fritar. Por isso, a farinha cria uma barreira que protege a carne delicada do contato direto com a frigideira quente, favorece o douramento uniforme e ajuda a manteiga a aderir ao peixe.

Contudo, o elemento central não é o peixe, nem a farinha. É a beurre noisette — a manteiga noisette, que em português significa manteiga cor de avelã. Além disso, é exatamente esse processo de caramelização da manteiga que transforma um peixe simples num prato de memória.

Por Que Expõe o Nível Técnico

A sole meunière exige controle simultâneo de três variáveis em janela de tempo estreita: temperatura da frigideira, ponto da manteiga e ponto do peixe. Por isso, qualquer descuido em um dos três compromete os outros dois em cascata.

Além disso, linguado é um peixe de carne muito delicada que passa do ponto em segundos. Contudo, mal cozido tem textura translúcida desagradável. Dessa forma, a janela entre cru demais e passado demais é de aproximadamente dois minutos — e não volta.


"Manteiga noisette no ponto exato de cor avelã com sólidos do leite dourados no fundo da frigideira de aço inox no processo de preparo do sole meunière"

“Esse é o momento. Cor de avelã, aroma de nozes, sólidos do leite dourados no fundo. Dez segundos depois vira manteiga queimada e o prato está comprometido.” –>


2. Sole Meunière: Ingredientes e o Que Cada Um Faz

A Lista Curta que Não Admite Substituição

A sole meunière tem poucos ingredientes — e exatamente por isso cada um precisa ser de qualidade. Por outro lado, em receitas mais complexas, um ingrediente mediano pode ser compensado por outro. Aqui não há compensação possível.

O linguado: idealmente linguado europeu (Solea solea), mas linguado nacional ou outro peixe achatado de carne branca e delicada funciona. Além disso, o peixe precisa ser muito fresco — olhos brilhantes, cheiro de mar limpo, carne firme ao toque. Peixe com cheiro amoniacal ou carne mole não se recupera com técnica nenhuma.

A manteiga: integral, com teor de gordura acima de 82%. Por isso, manteiga com teor menor tem mais água, que interfere no processo de noisette e dificulta o douramento uniforme. Contudo, manteiga com sal pode ser usada — mas ajuste o sal final do prato.

A farinha: trigo comum, peneirada. Além disso, a camada precisa ser fina e uniforme — excesso de farinha cria crosta espessa que compete com a leveza do peixe. Por outro lado, pouca farinha não protege adequadamente a carne durante o cozimento.

O limão: siciliano ou taiti, espremido na hora. Limão engarrafado tem acidez plana que não faz o mesmo trabalho que o limão fresco na sole meunière.

A salsinha: lisa (persil plat), não crespa. A salsinha lisa tem sabor mais limpo e textura mais elegante para finalização.


3. A Manteiga Noisette: O Coração da Receita

O Processo Químico

A beurre noisette é o resultado da reação de Maillard aplicada aos sólidos do leite presentes na manteiga. Por isso, quando a manteiga derrete e a água evapora, as proteínas e os açúcares do leite começam a dourar — desenvolvendo centenas de compostos aromáticos com notas de avelã, caramelo e nozes.

Além disso, é exatamente esse processo que transforma a manteiga de gordura neutra em elemento de sabor central da sole meunière. Contudo, a janela entre noisette perfeita e manteiga queimada é de aproximadamente 30 segundos em fogo médio-alto.

Como Reconhecer o Ponto

Três sinais simultâneos indicam o ponto da beurre noisette:

A cor: dourado médio, como a casca de uma avelã. Por outro lado, amarelo pálido ainda é manteiga sem sabor desenvolvido; marrom escuro é queimado e amargo.

O aroma: nozes e caramelo leve, quase adocicado. Além disso, quando o aroma muda de leitoso para amendoado, você está no ponto.

Os sólidos: as partículas de proteína do leite no fundo da frigideira devem estar douradas, não escuras. Por isso, use sempre frigideira de fundo claro ou inox para ver a cor dos sólidos com clareza.


"Mão de chef virando filé de sole meunière com espátula larga em frigideira com manteiga borbulhante mostrando crosta dourada perfeita na técnica de preparo"

“Espátula larga, movimento firme e único. O linguado é delicado demais para tentativas. Vira uma vez, no momento certo, e não toca de novo.” –>


4. Sole Meunière: Receita Completa Passo a Passo

Ingredientes para 2 Porções

  • 2 filés de linguado (150 a 180g cada) ou 1 linguado inteiro limpo
  • 80g de manteiga integral (dividida em duas partes)
  • 3 colheres (sopa) de farinha de trigo peneirada
  • Suco de 1 limão siciliano
  • 2 colheres (sopa) de salsinha lisa picada fina
  • Sal fino e pimenta branca moída na hora
  • 1 colher (sopa) de óleo vegetal neutro (para a frigideira)

Passo 1 — Preparação do Peixe

Seque os filés completamente com papel toalha. Por isso, qualquer umidade na superfície impede o douramento e faz a manteiga espirrar. Além disso, tempere com sal e pimenta branca apenas no momento de enfarinhar — sal antes extrai umidade da carne.

Passe os filés na farinha peneirada dos dois lados. Sacuda o excesso com firmeza — a camada deve ser fina e uniforme, não espessa. Contudo, não deixe o peixe enfarinhado aguardando por mais de dois minutos ou a farinha absorve umidade e vira pasta.

Passo 2 — O Cozimento

Aqueça uma frigideira grande de fundo grosso em fogo médio-alto. Quando estiver quente, adicione o óleo neutro e 30g da manteiga. Por outro lado, a combinação de óleo e manteiga eleva o ponto de fumaça e permite dourar sem queimar.

Quando a manteiga parar de espumar, coloque os filés com o lado de apresentação para baixo. Além disso, não mova o peixe — deixe o contato com a frigideira criar a crosta. Cozinhe por 2 a 3 minutos, dependendo da espessura, até a borda inferior mostrar carne branca opaca até a metade do filé.

Vire uma única vez com espátula larga. Dessa forma, o segundo lado cozinha em 1 a 2 minutos. O peixe está pronto quando a carne desgruda da espátula com leveza e o centro não mais translúcido.

Retire os filés para o prato de servir aquecido imediatamente.

Passo 3 — A Beurre Noisette

Descarte a gordura da frigideira com cuidado. Além disso, limpe levemente com papel toalha sem esfriar a frigideira. Volte ao fogo médio e adicione os 50g de manteiga restantes.

Observe com atenção. Por isso, mexa a frigideira em movimentos circulares enquanto a manteiga derrete, espuma e começa a dourar. No momento em que a cor atingir o dourado médio e o aroma de nozes aparecer, retire do fogo imediatamente e adicione o suco de limão — o ácido para o cozimento e fixa a cor.

Contudo, a frigideira ainda está muito quente após sair do fogo — por isso adicione o limão com distância para evitar o respingo de manteiga quente.

Finalize com a salsinha picada, prove o tempero e despeje imediatamente sobre os filés.


5. Sole Meunière: Os Erros que Destroem o Resultado

O Que Vai Errado com Mais Frequência

Peixe úmido na frigideira é o erro mais comum na sole meunière. Umidade cria vapor que impede o contato direto entre a farinha e a gordura quente — o peixe cozinha em vez de dourar. Por isso, secar completamente com papel toalha não é detalhe opcional.

Farinha espessa demais cria crosta que domina a textura e o sabor do prato. Além disso, absorve gordura em excesso e deixa o prato pesado. Contudo, a camada correta é quase transparente ao olhar — você vê a cor do peixe através dela.

Manteiga queimada em vez de noisette é o erro técnico mais frequente. Por outro lado, quem tenta apressar o processo com fogo alto ultrapassa o ponto em segundos. A beurre noisette exige fogo médio e atenção total.

Virar o peixe cedo demais rompe a crosta antes de estar formada. Além disso, linguado é frágil — crosta incompleta significa peixe que se parte na virada. Por isso, espere os sinais visuais na lateral do filé antes de virar.

Servir frio é o erro final. A sole meunière precisa ir do fogo ao prato em menos de um minuto. Contudo, prato frio esfria o peixe e solidifica a manteiga imediatamente. Por isso, aqueça os pratos no forno a 60°C enquanto cozinha.


6. Sole Meunière: Harmonização e Guarnições

O Que Servir Junto

A guarnição clássica da sole meunière é batata vapor ou purê simples — elementos neutros que não competem com o sabor do peixe e da manteiga. Além disso, aspargos brancos no vapor ou haricots verts salteados completam o prato sem sobrecarregar.

Por outro lado, guarnições ácidas ou de sabor intenso comprometem a delicadeza do prato. Contudo, alcaparras em quantidade pequena na manteiga noisette são a única exceção clássica aceita — desde que não exageradas, como aprendi da forma mais constrangedora possível em 2014.

A Harmonização Ideal

Borgonha branca jovem ou Chablis Premier Cru é a combinação clássica e impecável. Além disso, o Chardonnay sem barrica tem mineralidade e acidez que complementam a manteiga sem competir com a delicadeza do peixe.

Para entender a lógica completa dessa escolha, leia nosso guia de Harmonização Vinho Branco com Peixes. Além disso, o post sobre Emulsão na Cozinha explica como a manteiga noisette se comporta quimicamente — e por que a adição do limão no momento certo é tecnicamente precisa, não apenas tradicional.


"Sole meunière finalizado com beurre noisette salsinha e limão em prato branco ao lado de taça de Borgonha branca em mesa elegante e intimista"

“Prato pronto, vinho gelado, mesa arrumada. O sole meunière não precisa de mais nada além disso. A simplicidade é a sofisticação.” –>


O Que Julia Child Sabia

Ela descreveu aquele linguado em Rouen como a revelação de que comida poderia ser uma experiência transformadora. Não um prato elaborado, não uma técnica impressionante de show — apenas um peixe, manteiga, limão e a mão certa conduzindo os três.

Por isso, toda vez que faço sole meunière, lembro do chef Michel naquela manhã de fevereiro de 2013. “Ce plat n’a pas le droit d’être raté.”

Ele não estava exagerando. Além disso, com a técnica certa, o prato não vai errar. E quando acertar — você vai entender completamente o que Julia Child quis dizer naquela noite de 1948.

Bon appétit.


⚠️ Nota do Chef: Este conteúdo é baseado em experiência profissional de 15 anos e formação no Le Cordon Bleu Paris. Técnicas testadas em cozinha profissional e adaptadas para o ambiente doméstico.


Sobre o Autor

Rafael Monteiro — Chef Profissional | Pyriade 🍽️

Chef formado no Le Cordon Bleu Paris (2012). Trabalhou como commis e sous-chef em restaurante 2 estrelas Michelin em Paris entre 2013 e 2016. Chef de cozinha em restaurante premiado em São Paulo entre 2017 e 2020. Hoje dedica-se a democratizar técnicas de alta gastronomia através do Pyriade.


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Última atualização: Fevereiro de 2026

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