Por Rafael Monteiro | Pyriade | Fevereiro 2026
Manteiga de qualidade foi o ingrediente que mais me surpreendeu quando cheguei à França em 2012.
Não pela técnica, não pela raridade. Pela diferença que eu senti imediatamente ao colocar na boca algo que achava que conhecia completamente.
No Brasil, eu tinha crescido com manteiga comum de supermercado. Por isso, quando o chef Jean-Pierre Vigato colocou uma fatia de pão com manteiga de Isigny na minha frente numa tarde de outubro de 2012, eu comi em silêncio por um momento. Depois olhei para ele. Ele apenas sorriu.
“Vous comprenez maintenant.” Você entende agora.
Aquele contraste entre o que eu conhecia e o que estava comendo definiu minha relação com ingredientes premium para sempre. Além disso, me ensinou que manteiga de qualidade não é exagero de chef com orçamento ilimitado — é uma diferença real, mensurável, que qualquer paladar consegue perceber.
O Que Você Vai Encontrar Neste Guia
- O que diferencia a manteiga de qualidade da manteiga comum
- Teor de gordura: por que é o número mais importante
- Manteiga com e sem sal: quando usar cada uma
- As manteigas de referência no mundo e no Brasil
- Como usar em técnicas específicas: beurre noisette, croissant, purê
- Quanto faz diferença no resultado final
1. Manteiga de Qualidade: O Que a Diferencia de Verdade
Os Três Fatores que Definem o Produto
Manteiga de qualidade se distingue da manteiga comum por três fatores principais. Por isso, entender cada um transforma a forma como você escolhe o produto no supermercado.
Teor de gordura é o número mais importante da embalagem. Manteiga comum tem no mínimo 80% de gordura, conforme legislação brasileira. Contudo, manteigas europeias de qualidade frequentemente chegam a 84% ou até 86% de gordura. Além disso, cada ponto percentual a mais significa menos água no produto — e menos água significa sabor mais concentrado, textura mais firme e comportamento técnico superior na cozinha.
Alimentação das vacas impacta diretamente a composição da manteiga. Por outro lado, vacas que pastam em campo aberto e se alimentam de grama fresca produzem leite com maior concentração de betacaroteno e ácidos graxos que conferem sabor e cor à manteiga. Por isso, manteiga de vacas de pasto tem cor amarela naturalmente mais intensa do que manteiga de vacas alimentadas com ração.
Processo de fabricação faz a diferença entre manteiga convencional e cultured butter, a manteiga fermentada. Além disso, a adição de culturas bacterianas antes da batedura desenvolve ácido láctico que confere ao produto acidez e complexidade de sabor que manteiga convencional não tem.
A Diferença que Você Sente no Paladar
A manteiga de qualidade tem sabor mais longo e complexo na boca — notas de creme, avelã e levemente adocicadas que persistem. Contudo, a manteiga comum tem sabor mais curto e neutro, com notas de gordura sem a mesma profundidade.
Além disso, a textura em temperatura ambiente é diferente: manteiga com alto teor de gordura amolece de forma mais uniforme e se espalha com resistência levemente maior. Por outro lado, manteiga com mais água amolece de forma irregular e tende a liberar líquido ao esquentar.

“Mesma prateleira, preços diferentes, resultados completamente distintos. A cor já conta a história antes de qualquer análise técnica.” –>
2. Manteiga de Qualidade: Teor de Gordura e Comportamento Técnico
Por Que o Teor de Gordura Importa na Cozinha
O teor de gordura da manteiga de qualidade não é apenas questão de sabor. Por isso, impacta diretamente o comportamento técnico em preparações específicas.
Em massas laminadas (croissant, folhado, massa podre): manteiga com alto teor de gordura tem ponto de fusão mais alto e plasticidade maior em temperatura fria. Contudo, manteiga com mais água amolece mais rápido durante a laminação e escapa das camadas em vez de criar as folhas características. Além disso, água em excesso cria vapor durante o cozimento que umedece a massa em vez de criar camadas crocantes.
Na beurre noisette: manteiga com menos água atinge o ponto noisette mais rapidamente e de forma mais controlada. Por outro lado, manteiga com teor de água alto espuma mais e mais tempo, tornando mais difícil identificar o ponto exato de cor antes de queimar.
No purê: manteiga com alto teor de gordura emulsifica mais facilmente com o amido da batata, criando textura mais sedosa e brilhante. Dessa forma, o purê de manteiga de qualidade tem aquela consistência que os purês de bistrô parisiense têm e que parece impossível de replicar em casa sem o produto correto.
Em finalização e montagem: manteiga fria com alto teor de gordura monta molhos mais rapidamente pela técnica do monter au beurre — adição de cubos frios ao molho quente para criar emulsão brilhante.
3. Manteiga com Sal e Sem Sal: Quando Usar Cada Uma
A Regra Geral que Tem Exceções
A manteiga de qualidade sem sal é a escolha padrão para cozinha técnica. Por isso, permite controle preciso do sal em cada preparação — essencial em massas, molhos e confeitaria.
Contudo, a manteiga com sal tem seu lugar e sua tradição. Além disso, a manteiga salgada da Bretanha francesa — com cristais de flor de sal integrados — é um ingrediente gastronômico com identidade própria, não uma versão inferior da manteiga sem sal.
Por outro lado, em aplicações de calor intenso, o sal pode acelerar o escurecimento da manteiga e dificultar o controle do ponto noisette. Por isso, para a beurre noisette, use sempre sem sal e adicione o sal separadamente no final.
A regra prática: sem sal para cozinhar e confeccionar; com sal para servir à mesa com pão, para finalização de vegetais e para aplicações onde a textura dos cristais de sal é desejada.

“Essas camadas não existem sem manteiga de qualidade com alto teor de gordura. É física, não preferência pessoal.” –>
4. Manteiga de Qualidade: Referências no Mundo e no Brasil
As Manteigas de Referência Internacional
Algumas manteigas têm status de ingrediente premium com Denominação de Origem Controlada — o equivalente para manteiga do que as AOC têm para queijos e vinhos franceses.
Beurre d’Isigny (AOP): produzida na Normandia, com vacas que pastam nos prados úmidos da região. Por isso, é referência histórica de sabor e qualidade — 84% de gordura, cor amarela intensa, sabor complexo com notas de nata e avelã. É a manteiga que o chef Jean-Pierre me serviu naquele outubro de 2012.
Beurre d’Échiré (AOP): produzida em quantidade limitada numa única cooperativa no Poitou-Charentes. Além disso, ainda usa batedeira de madeira no processo — o que, segundo os produtores, confere textura diferente da produção industrial. Cara, difícil de encontrar fora da França, mas justifica a busca.
Manteiga Kerrygold (Irlanda): a mais acessível das referências internacionais no mercado brasileiro. Vacas irlandesas que pastam em campo o ano inteiro — cor visivelmente mais amarela que a manteiga comum, teor de gordura de 82%, disponível em grandes mercados no Brasil por R$ 18 a R$ 28 por 200g.
Referências Nacionais que Entregam Qualidade
O Brasil tem produtores de manteiga de qualidade que cresceram significativamente nos últimos cinco anos. Por isso, não é mais necessário importar para ter produto superior à manteiga industrial comum.
| Produto | Origem | Teor de gordura | Preço estimado |
|---|---|---|---|
| Manteiga de Garrafa Nordestina artesanal | Nordeste | ~78% (tipo diferente) | R$ 15 a R$ 35 por 200g |
| Kerrygold (importada) | Irlanda | 82% | R$ 18 a R$ 28 por 200g |
| Manteiga Aviação Extra | Brasil | 82% | R$ 12 a R$ 18 por 200g |
| Manteiga artesanal de queijaria mineira | Minas Gerais | 82 a 84% | R$ 20 a R$ 45 por 200g |
| Beurre d’Isigny (importada) | França | 84% | R$ 35 a R$ 60 por 200g |
Contudo, a manteiga de garrafa nordestina merece nota separada. Além disso, tecnicamente não é manteiga no sentido europeu — é um produto de processo diferente, com sabor e aplicações distintas. Por isso, use em preparações específicas que pedem seu sabor característico, não como substituto direto da manteiga europeia em técnicas clássicas.
5. Manteiga de Qualidade: Aplicações que Revelam a Diferença
Onde o Produto Premium Faz Diferença Real
A manteiga de qualidade faz diferença mensurável em cinco aplicações específicas. Por isso, se você quer testar antes de comprar habitualmente, comece por uma dessas.
Pão com manteiga em temperatura ambiente: o teste mais simples e mais revelador. Manteiga boa em temperatura ambiente, espalhada sobre pão de fermentação natural, entrega sabor imediato que justifica qualquer preço adicional.
Beurre noisette: como descrito no post do Sole Meunière, a manteiga com alto teor de gordura atinge o ponto noisette de forma mais controlada e com aroma mais intenso. Além disso, o resultado no prato é visivelmente mais rico e complexo.
Purê de batatas: o purê de Joël Robuchon, considerado o melhor do mundo, usa proporção de 1 parte de manteiga para 3 de batata. Contudo, esse resultado só é possível com manteiga de alto teor de gordura que emulsifica adequadamente com o amido. Por outro lado, tentar com manteiga comum produz purê aguado e sem brilho.
Finalização de molhos (monter au beurre): cubos de manteiga de qualidade gelada adicionados ao molho quente fora do fogo criam emulsão brilhante que cubos de manteiga comum não conseguem replicar com a mesma estabilidade.
Croissant e massa folhada: como explicado na seção anterior, a diferença na textura final das camadas é completamente visível — e comível.
Para entender como a manteiga interage com outras gorduras e líquidos em preparações emulsionadas, leia o guia de Emulsão na Cozinha. Além disso, o post sobre Flor de Sal explica a lógica de outro ingrediente premium com a mesma relação custo-impacto que a manteiga de qualidade — e como os dois se combinam na manteiga bretã.

“O purê de Robuchon usa uma parte de manteiga para três de batata. Esse resultado não existe com manteiga industrial. É física, não filosofia.” –>
O Que Mudou Depois de Outubro de 2012
Não voltei a comprar a manteiga mais barata disponível depois daquela tarde com o chef Jean-Pierre.
Não porque me tornei um snob de ingredientes. Por outro lado, porque entendi que certos produtos têm diferença real que impacta o resultado real — e que ignorar essa diferença é uma escolha, não uma necessidade.
Manteiga de qualidade não precisa ser a mais cara nem a importada. Precisa ser a melhor dentro do orçamento disponível, usada com intenção e no momento certo. Além disso, um pote de Kerrygold no Brasil custa R$ 25 e dura semanas numa cozinha doméstica — o custo por uso é negligenciável.
Por isso, comece pelo pão. Temperatura ambiente, manteiga boa, fermentação natural. Antes de qualquer técnica, antes de qualquer receita.
Você entende na primeira mordida.
Bon appétit.
⚠️ Nota do Chef: Este conteúdo é baseado em experiência profissional de 15 anos e formação na França. Preços são estimativas para o mercado brasileiro em 2026 e variam por região e estabelecimento.
Sobre o Autor
Rafael Monteiro — Chef Profissional | Pyriade 🍽️
Chef formado no Le Cordon Bleu Paris (2012). Trabalhou como commis e sous-chef em restaurante 2 estrelas Michelin em Paris entre 2013 e 2016. Chef de cozinha em restaurante premiado em São Paulo entre 2017 e 2020. Hoje dedica-se a democratizar técnicas de alta gastronomia através do Pyriade.
Conecte-se 🍽️
- 📧 E-mail: contato@pyriade.com
- 📺 YouTube: Pyriade Gourmet
- 📘 Facebook: Pyriade Gourmet
- 📌 Pinterest: @pyriade
- 🐦 X (Twitter): @pyriade64798
- 🎵 TikTok: @pyriadeblog
- 🎬 Kwai: @pyriadeblog992
Leia Também:
- Caldo de Ossos: Técnica Profissional e Como Fazer em Casa
- Manteiga de Qualidade: Por Que Muda Tudo na Cozinha
- Sole Meunière: Receita Clássica Francesa Passo a Passo
- Harmonização Vinho Branco com Peixes: Guia do Chef
- San Sebastián Gastronomia: Guia de Quem Comeu Lá
Última atualização: Fevereiro de 2026
